Publicado em :05/10/2017

Correio Braziliense – Trabalho, saúde e qualidade de vida

Glauco José Côrte e Fabrizio Pereira*

Saúde e qualidade de vida dos trabalhadores, a exemplo da educação e capacitação profissional, são aspectos de absoluta relevância no mundo dos negócios e, pela sua condição estratégica, devem estar no centro das atenções dos empresários. O tema carrega, evidentemente, elevado componente humanitário, além de refletir na competitividade das organizações. Avanços tecnológicos e do conhecimento aumentam a expectativa de vida com qualidade para as pessoas que vivem mais, buscam saúde melhor e se tornam mais produtivas, por mais tempo. A gestão da saúde, portanto, tem a ver com trabalhadores mais longevos também no ambiente de trabalho e que almejam aposentadoria que demande menos gastos com tratamentos e medicamentos.

Os gastos com a saúde do trabalhador equivalem em média a 11% da folha de pagamento das empresas brasileiras. Mas essa é a parte perceptível de um custo que pode ser três vezes maior, com a queda de produtividade, que se apresenta na forma de absenteísmo (afastamentos ou licenças por causa da incapacidade de trabalho) ou de presenteísmo (trabalhador presente, mas sem a plena produtividade, devido à precariedade de sua condição de saúde). Estudos internacionais da consultora americana HealthNext apontam que a baixa produtividade representa nada menos do que 70% dos custos reais com a falta de saúde do trabalhador.

Os prejuízos atingem também os cofres públicos e a economia como um todo. Conforme reportagem do Correio Braziliense, de 5 de junho passado, os afastamentos de trabalhadores brasileiros por questões de saúde geraram, de 2012 a 2016, um impacto econômico de R$ 22 bilhões (considerando os empregos formais), podendo chegar a R$ 40 bilhões (levando em conta os informais). O Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, mantido pelo Ministério Público do Trabalho, informa que, desde de 2012, já são 287 milhões de dias de afastamento.

Acontece que o investimento em saúde também dá retorno no longo prazo. O tema está diretamente relacionado à longevidade, cuja elevação é uma tendência mundial, resultado, principalmente, dos avanços na área de saúde — como as vacinas e antibióticos, detecção precoce de doenças, tratamentos mais eficazes e menos invasivos, reconhecimento da estrutura do DNA, entre outros. A expectativa de vida dos brasileiros se ampliou em 25,4 anos, de 1960 a 2010, devendo chegar a 78,6 anos, em 2030, e a 81,2 anos em 2060, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O avanço científico e tecnológico tem muita relação com saúde e qualidade de vida. Ao mesmo tempo em que a medicina amplia a expectativa de vida, as máquinas assumem as operações repetitivas e de maior risco nas fábricas. A modernidade, por outro lado, também gera estímulos ao sedentarismo e à obesidade, potencializando as doenças crônicas, relacionadas ao estilo de vida. As mais relevantes são as cardiovasculares, câncer, diabetes, respiratórias crônicas e neuropsiquiátricas. A Pesquisa Nacional de Saúde (IBGE e Ministério da Saúde), revela que 57 milhões de brasileiros possuem pelo menos uma dessas moléstias.

De acordo com estudos da World Health Organization (2016), 60% da população mundial não pratica atividade física e mais da metade dos adultos em todo o mundo está com sobrepeso. Além disso, sete em cada dez pessoas não cumprem com suas promessas, feitas na virada de ano, de cuidar mais da saúde. Os 27% dos trabalhadores que têm alimentação saudável e se exercitam regularmente apresentam menor taxa de absenteísmo.

Prevenir doenças é mais barato e inteligente do que tratar enfermidades, daí a relevância de investimentos empresariais em tecnologias e sistemas de gestão para a saúde e segurança do trabalho, incluindo aspectos como ergonomia, longevidade e produtividade, higiene ocupacional, prevenção de incapacidades, cuidados com fatores psicossociais, estímulo à atividade física, entre outros, que interfiram positivamente para o bem-estar do trabalhador. Programas desse gênero, associados à conscientização para um estilo de vida e de alimentação saudáveis, transformarão as empresas em espaços de promoção de qualidade de vida e de saúde — agora e no futuro. Essa é uma agenda que não pode estar apenas restrita à área de gestão de pessoas, mas precisa ser prioridade para a mais alta gestão das empresas.

*Glauco José Côrte é presidente da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc)

*Fabrizio Pereira é superintendente do Sesi-SC