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Publicado em :23/10/2017

O Globo – Cobertor curto

A crise que atinge a rede pública de atendimento médico vem aumentando a agonia de pacientes que aguardam cirurgias. Segundo relatos de diretores de hospitais à Comissão de Saúde da Câmara Municipal do Rio, as oito grandes unidades de emergência da cidade sofrem com a falta de insumos básicos em seus estoques e estão sendo obrigadas a suspender pelo menos 70% dos procedimentos eletivos (programados), para dar conta da demanda de quem precisa ser operado com a máxima urgência. De acordo com o vereador Paulo Pinheiro (PSOL), integrante da comissão que tem visitado os hospitais, o problema se agravou no último mês:,

— O problema é de toda a rede. As UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) não estão atendendo, então a frequência de pessoas na porta de emergências como as do Souza Aguiar e do Salgado Filho aumentou. A falta de materiais fez crescer a espera por cirurgias eletivas. Se elas tivessem transcorrendo normalmente, a fila no sistema de regulação não estaria tão grande — ressaltou Pinheiro.

AUMENTA A LISTA DE INSUMOS EM FALTA
Segundo o vereador, o Hospital Salgado Filho, no Méier, enfrentava, na última sexta-feira, a falta de 146 insumos básicos, como gaze e luvas, e de 57 medicamentos, desde analgésicos e antitérmicos até antibióticos. A unidade, de acordo com médicos que trabalham no local, tem apelado para o escambo: troca alguns remédios com outras unidades para manter o estoque “baixo, porém abastecido”, como informou um profissional que pediu para não ser identificado. O número total de procedimentos cirúrgicos — de emergência e eletivos —, que gira em torno de 550 ao mês, caiu para cerca de 450 em setembro.

— Estão dando preferência à emergência devido à falta de materiais — disse um médico do Salgado Filho. — A demanda está muito grande, passamos a priorizar o setor de trauma (pelo qual chegam baleados e acidentados). Enquanto os hospitais federais não entrarem na regulação e reforçarem a capacidade de realização de cirurgias eletivas, não resolveremos o problema.

Segundo Pinheiro, o problema atinge também os hospitais Miguel Couto, na Gávea; Souza Aguiar, no Centro; Lourenço Jorge, na Barra; Pedro II, em Santa Cruz; Rocha Faria, em Campo Grande; Albert Schweitzer, em Realengo; e Evandro Freire, na Ilha do Governador. Diante da situação dramática dos estoques, a prefeitura, de acordo com uma fonte ouvida pelo GLOBO, concordou em fazer hoje uma liberação emergencial de R$ 26 milhões para uma parte dessas unidades.

Questionada sobre a suspensão de procedimentos agendados, a Secretaria municipal de Saúde emitiu uma nota afirmando que “todos os hospitais de emergência mantêm seus mapas de cirurgias eletivas, porém a prioridade nessas unidades será sempre para os casos de emergência e de maior risco que cheguem ao pronto atendimento”.
Um enfermeiro do Salgado Filho disse que falta de tudo na unidade, inclusive gaze, mas o problema mais grave é providenciar roupa de cama para os leitos:

— Nunca vi faltarem insumos tão básicos na rede municipal. Estamos tendo problemas até com roupa de cama. Há um desgaste natural desses materiais e nenhuma reposição.

No Evandro Freire, na Ilha do Governador, funcionários contaram à Comissão de Saúde da Câmara Municipal, na semana passada, que os estoques dependiam de doações de insumos de outros hospitais, transportados em ambulâncias.

ATENDIMENTO RESTRITO NO ROCHA FARIA
O atendimento no Rocha Faria, em Campo Grande, continuava sendo feito de forma precária ontem, um dia após 58 funcionários terem faltado ao plantão da madrugada. Pela manhã, a emergência só estava recebendo casos graves, apesar de a direção afirmar que nenhum médico deixou de comparecer ao trabalho. Profissionais da unidade contaram, no entanto, que muitos técnicos de enfermagem, com salários atrasados, voltaram a faltar. Os que foram trabalhar acabaram sendo obrigados a dobrar o expediente e atender por até 30 horas seguidas. Os problemas no hospital levaram a 24 pedidos de demissão este mês.

Muitas pessoas que procuraram o Rocha Faria voltaram para casa sem atendimento. Foi o caso de Alexandra Conceição dos Santos, que levou o filho Matheus Antônio, de 5 anos, mas não conseguiu que ele fosse examinado. Segundo ela, o menino, que estava há dois dias com 39 graus de febre, chegou a ser consultado numa UPA. Após exames de sangue e urina do garoto não acusarem nada, ela resolveu tentar uma segunda opinião no hospital, mas não conseguiu:

— O que mais me revolta é que enterrei minha mãe há um mês. Ela entrou aqui com fratura no fêmur e saiu morta. Era um jogo de empurra entre os médicos. O ortopedista passava para o clínico, que dizia que era com o ortopedista. Estou há duas noites sem dormir, tentando saber o que meu filho tem, pois a febre não baixa.

Alexandre Valério, que acompanhava a mulher, Maria Luiza da Silva, que caiu de uma janela no segundo andar da casa da família, contou que os pacientes que chegaram ao Rocha Faria depois das 22h, na sexta-feira passada, não foram atendidos. Ele entrou na unidade por volta das 18h, antes da paralisação de técnicos de enfermagem:

— O Samu não está trazendo pacientes para cá desde a noite de sexta. Minha mulher foi bem atendida, fez exame de raios X, tomografia e passou por uma cirurgia porque quebrou um pulso na queda, mas o hospital está vazio.
A Organização Social (OS) Iabas, que administra o Rocha Faria, afirmou que o hospital continua prestando atendimento, apesar de um atraso de repasses por parte da prefeitura. A dívida chegaria a R$ 14 milhões. Na última quinta-feira, a OS recebeu, pelo contrato de prestação de serviço, R$ 5 milhões do município.

CLÍNICAS DA FAMÍLIA DEMITEM, DIZ ASSOCIAÇÃO
A situação atinge não só emergências, mas a saúde básica também. A Associação de Medicina de Família e Comunidade diz que, por causa da crise, 174 profissionais foram demitidos de Clínicas da Família este ano — principalmente agentes comunitários, mas também enfermeiros e dentistas. A maioria trabalhava na Zona Oeste, segundo o presidente da entidade, Moisés Nunes.

— Muitos estavam lotados na área de Santa Cruz, que é muito vulnerável e onde as equipes percorrem grandes distâncias. Isso está acontecendo porque as organizações sociais não estão recebendo repasses da prefeitura e acabam demitindo — afirma Nunes. — A gente vê esse fenômeno com bastante gravidade, porque a principal tecnologia da atenção primária é a relação do profissional com o paciente. Se você fragiliza essa relação, fragiliza o cerne da medicina de família.

Para o ano que vem, a perspectiva é que a situação se agrave. De acordo com o vereador Paulo Pinheiro, o orçamento previsto para 2018 é de R$ 4,9 bilhões, o equivalente ao de 2016. Embora o orçamento de 2017 tenha sido de R$ 5,4 bilhões, até agora só foram usados R$ 4,5 bilhões, por causa do contingenciamento de verbas. Na quintafeira, a Câmara vai discutir esse valor em audiência pública com a Secretaria municipal de Saúde e as comissões de Finanças e Saúde da Casa.